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   A História da música de Carnaval - Histórias pitorescas

O ZÉ PEREIRA CARNAVALESCO
Francisco Corrêa Vasques

Reunindo a alegria barulhenta do Zé Pereira apresentada pelo sapateiro português da rua São José ao também ruidoso número francês do antigo Alcazar, Francisco Correia Vasques arranjou uma cena cômica que intitulou de Zé Pereira Carnavalesco e montou-a então pela Companhia Jacinto Heller. Era um pequeno ato com a pretensão única de comicidade, sem qualquer outro destaque que não o de apresentar a melodia excitante para a qual o cômico brasileiro escrevera uns versos que, no ano seguinte com a designação de "poesia" seria incluída com o titulo de Viva o Zé Pereira na coletânea Lira de Apolo, como consta da publicação da Biblioteca Nacional - Rio Musical - crônica de uma cidade (1965).

A peça de Vasques é transcrita na íntegra por Procópio Ferreira no seu livro O ator Vasques (1939) e aqui vai também na íntegra para conhecimento e apreciação dos nossos clientes:

O ZÉ PEREIRA CARNAVALESCO
Coisa cômica que se deve parecer muito com
LE POMPIERS DE NANTERRE
arranjada pelo artista - F. C. VASQUES
Tipografia e Litografia POPULAR - de Azeredo Leite
Praça da Constituição - 7 - (Lado da Rua da Carioca ) - 1869

PERSONAGENS
JOAQUIM MADRUGA - Sr. Vasques
Funileiro e que toca clarineta, para maçar o próximo, nos dias de carnaval
JOÃO PIMPÃO - Sr. Ferreira
Charuteiro tocador de zabumba pelo mesmo motivo
JOSÉ DA VÉSTIA - Sr. André
Vendedor de galinhas e tocando caixa de rufo por sua conta e risco
MANOEL FERREIRO - Sr. Pinto
Assoprador de fagote para prejuízo dos tímpanos da humanidade
JOANA PERERECA - Sra. D. Virginia
Virtuosa criatura que frequentava o Pavilhão
O CHICO DA VENDA - Sr. Carvalho
Pedestre, formando como sempre a OPINIÃO PÚBLICA

MASCARADOS DE TODOS OS GÊNEROS
A ação passa-se no Rio de Janeiro, oito horas antes da quarta-feira de cinzas.
ATO ÚNICO - (Praça)

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CENA I
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MADRUGA, PIMPÃO, VÉSTIA E FERREIRO
Os quatro (Entrando da E.A. tocando os seus instrumentos; cantam):

    E viva o Zé Pereira!
    Pois que a ninguém faz mal
    E viva a bebedeira
    Nos dias de carnaval!
    Zim, balala! Zim, balala!
    E viva o carnaval!

VÉSTIA - Alto frente, porfilar! Olhar à direita, Joaquim Madruga; parece que andas sempre fora do alinhamento da Caimbra Bonicipal!

MADRUGA - Olá, seu homem dos funis, não quero graças comigo, senão enfio-lhe esta clarineta pela boca adentro, que você fica três dias a tocar variações em lá menor.

FERREIRO - Eh! lá! eh! lá! Então isto vai a vias de fato? Havia de ser engraçado você meter assim um instrumento pela barriga dentro do outro. Hoje é dia de carnaval. Rufe, seu Zé da Véstia e não se arrufe com os outros.

PIMPÃO - Apoiado! Viva o Manoel Ferreiro (Cambaleia) Oh! gentes, a modo que eu já estou meio bêbado!

VÉSTIA - Esta dito, nada de brigas; vamos antes descansar um pouco! Eu já tenho os braços moídos.

MADRUGA - Eu também já tenho um calombo no beiço de riba de tanto assoprar neste canudo.

FERREIRO - Eu arranhei a venta esquerda com a ponta deste cachimbo e tenho espirrado tanto... (Espirra)... que é impossível que amanhã não haja sol.

PIMPÃO - Então o teu nariz tem pervelégio de folhinha americana?! (Cambaleia dando uma risada) Oh! gentes, a modo que eu já estou meio bebado!

VÉSTIA - Vamos nós, para matar o tempo, fazer adivinhações?

OS OUTROS - Vá feito, vá feito! Quem principia?

MADRUGA - Eu! - Qual é a nota de música que anda no céu e no mar?

PIMPÃO - É a baleia.

OS OUTROS - Ah, ah, ah! Oh! que cavalgadura!

PIMPÃO - Cavalgadura, não! (Cambaleia) Oh! gentes, a modo que eu já estou meio bêbado! Que marvados!

FERREIRO - Espera, espera! É..é...é...(Pausa) Ah! não é, não!

VÉSTIA - Ah! já sei! A nota de música que anda no mar e no céu é - falua.

OS OUTROS - Bravo, viva, viva!

MADRUGA - Prestamos os escómios ao talento do José da Véstia

OS OUTROS - Vá feito, vá feito! (Cantam e marcham)

    E viva o Zé Pereira!
    Pois que a ninguém faz mal!
    E viva a bebedeira
    Nos dias de carnaval!
    Zim, balala! Zim, balala!
    E viva o carnaval!

VÉSTIA - Alto frente, porfilar!

MADRUGA - Lá vai outra! - Qual é a letra do alfabeto, que muita gente boa gosta de pregar nos alfaiates, sapateiros, donos de casa, etc., etc...

PIMPÃO (Gritando) - É giz! é giz! acertei, acertei!

MADRUGA - Oh! que orelhudo. Vai cozinhar a mona! Então giz, é letra do alfabeto, cavalo?

PIMPÃO - Pois não é? O analfabeto não é assim? Abc,d,e,f,g,h,i,ji,ji,gigis!

OS OUTROS - Ah, ah, ah! Este aprendeu no tico-tico.

FERREIRO - Eu já sei o que é. A letra que se deve pregar nos alfaiates, sapateiros, donos de casa, etc. etc. é...é... o K-lote.

MADRUGA - Viva o Manoel Ferreiro. Prestemos homenagem à sua inlevada inteligência (Marcham e cantam)

OS QUATRO:

    E viva o Zé Pereira!
    Pois que a ninguém faz mal!
    E viva a bebedeira
    Nos dias de carnaval!
    Zim, balala! Zim, balala!
    E viva o carnaval!

VÉSTIA - Alto frente, porfilar! Agora, enquanto não vamos para o baile onde vai fazer furor a nossa sociedade, cantemos alguma coisa.

FERREIRO - O que há de ser?

VESTIA - Asneiras do carnaval, tudo serve! Eu principio: (Canta)

    Uma tarde passeando
    Lá na rua do Sabão
    Eu fiquei sem meu chapéu
    Por causa da viração!
    Eu não sinto, o meu chapéu
    Nem que isto me aconteça
    Sinto: só deixar com ele
    A minha pobre cabeça.
    E viva o Zé Pereira!
    Pois que a ninguém faz mal!
    E viva a bebedeira
    Nos dias de carnaval!
    Zim, balala! Zim, balala!
    E viva o carnaval

TODOS - E viva o Zé Pereira etc. etc.

MADRUGA - Também não perdias lá grande coisa. Agora eu, (Canta)

    Uma vez brincava eu
    Com dois caroços de mangas
    E em casa sem querer,
    De vidro, parti as mangas!
    Fujo pra rua, que a velha
    Queria escovar-me o pó:
    E uma manga d'água ensopa-me
    As mangas do paletó
    E viva o Zé Pereira
    Pois que a ninguém faz mal!
    E viva a bebedeira
    Nos dias de carnaval
    Zim, balala! Zim, balala!
    E viva o carnaval!

TODOS - E viva o Zé Pereira, etc. etc.

FERREIRO - Isto é mangação! Agora entro eu! (Canta):

    Uma vez em certo hotel,
    Uma tainha eu comia
    Que o sujeito afiançava
    Ser pescada nesse dia;
    Caça o dinheiro da gente
    Com ele faz sua dita
    Sendo às vezes estas cassas
    Escassas varas de chita.
    E viva o Zé Pereira!
    Pois que a ninguém faz mal!
    E viva a bebedeira
    Nos dias de carnaval!
    Zim, balala! Zim, balala!
    E viva o carnaval!

TODOS - E viva o Zé Pereira, etc. etc.

PIMPÃO - Agora, farta a minha, farta a minha!

MADRUGA - Oh! Quadrupede, ainda não estás farto de dizer asneiras?

PIMPÃO - É uma história, que eu vou contar. Meu pai, queria vir pra cidade e pediu-me pra eu ficar tomando conta da sua fazenda, onde se curtivava o argodão e eu então lhe disse: (canta)

    Pois bem meu pai eu fico
    Da sua fazendo guarda
    Mas como eu adeministro
    Quero já ter uma farda.

MADRUGA (Interrompendo-o) - Uma farda de ministro? Não querias também a pasta da fazenda?

PIMPÃO - (Continua).

    Isto até não se pregunta
    Tendo o negócio na mão
    Eu havia de ter pastas
    Da fazenda de argodão.
    E viva o Zé Pereira!
    Pois que a ninguém faz mal
    E viva a bebedeira
    Nos dias de carnaval
    Zim, balala! Zim, balala!
    E viva o carnaval!

TODOS - E viva o Zé Pereira, etc. etc.

MADRUGA - Agora, saiamos do canto e vamos...

TODOS (Se encaminham para o F.E. deixando-o sozinho e dizendo) - Sim, vamos para o largo!

MADRUGA - Qual largo, nem meio largo, só se, à larga já andam as vossas algibeiras; eu falo do canto - canto e não canto - esquina! Quero dizer que passemos das cantigas à prosa: façam de conta que vocês três me elegem deputado e eu tenho de fazer o meu discurso de apresentação!

PIMPÃO - Então isto aqui representa, a assembléia legislativa?

VÉSTIA - Nós só dizemos: - apoiado!

MADRUGA - Não me interrompam: (Começa o discurso) - A minha mão, senhores, é uma mão, desfruta a vida e torna a ser mão; pratica que enquanto for mão há de aplainar tábuas de gamão para meu primo Simão que tem um gênio azedo, conhecer ali mão doce de um carpinteiro. Sei que muitos bramam, pois gemam, eles me somam os lucros, mas não me aclamam seu mestre: e a minha cara, senhores? A minha cara não tem sido barata desde que engoliu uma carrapeta de banhar a careta com uma água que um francês de caráter fabricara, dizendo que fazia um bom característico! Ah! que se eu tivesse uma carabina, ele não me transformava a fisionomia em caracol; não fazia da minha cara pau de cabeleira, pois eu tenho uma enorme carapinha, ainda que eu use carapuça, ficarei reduzido eternamente a um caramanchão. E o meu pé? É a parte mais forte do meu corpo, pois é um pé-daço de carne e osso que me sustenta do lado esquerdo. Posso com ele pisar as brasas de uma fogueira que nunca ficará pé-lado o meu pé-lá-dura. Que petição se pode fazer a um romano como eu, cujo pé-dido é para que o deixem ser pé-dante e fazer versos para obter um pé-diluvio ou pélago nas portas do cemitério; além disso o meu pé nada em saúde, nunca teve febres, não precisa de sulfato, não é pequenino nem tão grande que fique pé-gado, porque quando algum mano busca-pé de brigar comigo, diz sempre no fim, depois de ter tomado pra seu tabaco: O senhor não erra pé. Vou falar agora da minha testa, contesta alguém este meu propósito? Não! Pois então ouçam e passem-me um atestado de moço espirituoso para que eu fazendo testamento, possa dizer a meu filho; a testa que teu pai tinha, et coetera e tal pontinhos...

OS OUTROS - Viva o Joaquim Madruga, viva!

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CENA II
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Os mesmos, CHICO DA VENDA, com uma coroa de louros enfiada no braço, trazendo pela mão JOANA PERERECA e MASCARADOS.

MASCARADOS - (Dentro) - Deixem passar o Chico da Venda, ele vai falar às massas e coroar a inocência.

JOANA (Entrando) - Não me façam ficar coroada

UMA MÁSCARA - Não envergonhem a Perereca.

JOANA - Perereca é a sua avó, não seja desavergonhado.

MASCARA - Ó Perereca, Perereca, não tens água na caneca?

JOANA - Pensam talvez que me debicam? Ora ouçam e pasmem (Canta):

    Vocês são uns idiotas
    Em pensar que eu subo a serra
    Mas eu vou então provar-lhes,
    Como dou tudo em terra!
    Hei de dançar uma canção
    Que há de levar tudo a breca!
    Embora que vocês gritem:
    Perereca! oh! Perereca!
    E viva a Perereca
    Pois que a ninguém faz mal
    Sem água na caneca,
    Nos dias de carnaval!

TODOS - E viva a Perereca, etc. etc.

CHICO - Silêncio! Minha língua vai entrar em serviço.

OUTRO MASCARADO - Tem a palavra o Chico da Venda.

OS MÁSCARAS - Ouçam, ouçam!

CHICO - Mancebos e mancebas, a Opinião Publica vos observa, correi, saltai, dançai, já o fizeste ontem, podeis continuar hoje; quem tem seu vintem, bebe logo! e o dia de amanhã que representa, sem contestação, o futuro, vos apontará o erro, e entre suspiros e ais, quando o cataplasma de linhaça invadir o vosso corpo, murmureis baixinho: - Quem te mandou, sapateiro, tocar rabecão? (A Joana) Menina, esta coroa de louro, símbolo das tuas vitórias; tem neste momento outra significação: - foi um cozinheiro, um homem que tem o tempero na mão quem ma forneceu, possas tu com ela temperar eternamente a panela da tua existência. Não te meto azorrague da crítica, mas sempre te direi: Joana - nem tudo o que luz é ouro, - o sol quando nasce, é para todos; - reflete, enquanto estás em anos verdes, maduramente nas minhas palavras; a loucura fechou-te os olhos, tirou-te a vista, mas eu, sentinela da inocência te brado: - abre o olho! - Quem me avisa, meu amigo é - Mas vale quem Deus ajuda, do que quem muito madruga.

TODOS - Apoiado, muito apoiado!

CHICO (Continuando) - Não deixeis entrar pelas tuas narinas esse pó envenenado das orgias; mais tarde, quando louca de tanto espirrares, não quiseres desse rapé, ficarás eternamente tomando o teu tabaco. (Todos espirram) Dominus tecum. Reflete que a pemba, chegará um dia à ultima estação e nesse dia então, consultando a tua carteira vazia, os teus encantos murchados, vendo que a locomotiva parte deixando-te banhada em lágrimas, exclamarás, levantando o dedo para o ar: - É tempo será de m-i-c-o-c-ó, laranja- da- china, tabaco em pó! (Acaba chorando).

TODOS (Repetem chorando também) - É tempo será de mi-c-o-có, laranja-da-china, tabaco em pó! Viva o Chico da Venda! Viva!

CHICO - Obrigado, rapaziada! Hoje é o último dia de carnaval, o baile vai começar: comecemos nós também, dançando aqui, para nos abrir o apetite, uma quadrilha rasgada.

TODOS - Vá feito, vá feito!

VESTIA - Antes disso deixem esta menina dizer ao que vem.

CHICARD (moça canta):

    O Zé Pereira no carnaval
    Pode o zabumba rebentar.
    Mas depois desta folia
    Outros lhe tomam o lugar!
    Sem máscaras percorrem eles
    As ruas desta cidade,
    Arrebentando sem malho
    A pele da humanidade!
    E viva o Zé Pereira
    Pois que a ninguém faz mal
    E viva a bebedeira
    Nos dias de carnaval
    Zim, balala! Zim, balala!
    E viva o carnaval!

TODOS - E viva o Zé Pereira, etc. etc....

MADRUGA - Agora eu, por parte do autor (Canta):

    O autor manda pedir
    Um pouco de paciência
    Mais do que nunca precisa
    Toda vossa indulgência?!
    Dêem palmas e desculpem
    Este trabalho grotesco
    Que devendo se chamar

- Les Pompiers de Nanterre, excentricidade parisiense, que se apresenta no Alcazar, mas que ele aqui intitula:

    O ZÉ PEREIRA CARNAVALESCO!
    E viva o Zé Pereira!
    Pois que a ninguém faz mal
    E viva a bebedeira
    Nos dias de carnaval!
    Zim, balala! Zim, balala!
    E viva o carnaval!

TODOS - E viva o Zé Pereira, etc. etc...

CHICO DA VENDA - Agora a quadrilha! (Dançam a quadrilha e...aguentem-se no balanço).

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F I M
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Com o passar do tempo a quadrinha do Zé Pereira ficou resumida a apenas

    Viva o Zé Pereira - Viva o carnaval
    Viva o Zé Pereira - Que a ninguém faz mal

       Ou:
    Viva o Zé Pereira - Viva o Zé Pereira
    Viva o Zé Pereira e viva o Carnaval
O documento que ora transcrevemos para conhecimento dos nossos clientes
é peça importante para a formação da História do Carnaval.

José Maria Campos Manzo    
Janeiro de 1994    



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