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   A História da música de Carnaval - Histórias pitorescas

O ZÉ PEREIRA
José Nogueira de Azevedo Paredes

Quem primeiro falou deste personagem importante da nossa História da Musica de Carnaval foi Vieira Fazenda que nasceu no Rio de Janeiro em 1847 e faleceu em 1917 na mesma cidade. Em 1904 ele escreveu um livro intitulado " Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro" e é nesse livro que aparece o capitulo sobre o Zé Pereira.

Reinava, até então, no carnaval carioca, o famoso Entrudo trazido para cá pelos portugueses. Ou seja o banho que se dava aos transeúntes com água, nem sempre cheirosa como deveria ser, segundo o que era praticado pelas elites da época: o conhecido limão de cheiro e as bisnagas com água perfumada. O povão se encarregou de desmoralizar o Entrudo jogando água suja mesmo uns aos outros e ai... virava arruaça, pancadaria, policia, etc. Várias tentativas foram feitas pelas autoridades para debelar tal barbaridade mas pouco adiantava. Apesar de todos os rigores, no Brasil imperavam sempre esses perigosos folguedos. Em 1727 os foliões entenderam na Bahia transformar até a quinta-feira santa em pleno domingo gordo. O Vice-Rei Vasco Fernandes de Cesar Menezes pensou que as mortes, insolências e desassossegos eram devidos aos taverneiros e ordenou o fechamento dos seus estabelecimentos até o dia de Páscoa. Os infratores seriam presos por seis meses e pagariam duzentos mil reis para as obras da Ribeira. Mas esta luta contra o Entrudo vinha de longe como o provam as posturas municipais e avisos de 31 de janeiro e 13 de fevereiro de 1604, 17 de maio de 1612, 25 de dezembro de 1608, 24 de fevereiro e 22 de outubro de 1686, 20 de setembro de 1691, 6 e 20 de fevereiro de 1734 e o edital de policia de 25 de fevereiro de 1808.

De nada adiantava e em tempos mais recentes o Entrudo tocou o seu auge pelo exemplo que vinha de cima: o primeiro imperador, dizem, era louco por esta brincadeira. O segundo seguiu-lhe as pegadas e conforme conta o Dr. Rafard em seu trabalho Pessoas e Coisas do Brasil, o Paço de São Cristovão tornava-se teatro de lutas, em que tomavam parte o jovem soberano, seus camaristas e suas augustas irmãs. Já velho, quando em Petrópolis, era alvejado pelos mimosos limões de cheiro atirados por donas e donzelas. Chegava ao palácio molhado como um pinto. O Entrudo predominou entre nós durante quase três séculos e contra ele movia-se cerrada campanha.

Diz Vieira Fazenda nas suas Antiqualhas:

"O que em relação às classes elevadas fizeram os propagandistas contra o Entrudo, realizou-o quanto à arraia miúda modesto artista sapateiro, pacato burguês, introduzindo o chamado Zé Pereira, verdadeiro derivativo, que hoje goza entre nós do privilégio de senhor do baraço e do cutelo".

" Carão amorenado e simpático, olhos brejeiros, bigode curto e grisalho, cabelo todo branco e à escovinha, barba escanhoada, altura regular, ombros e cadeiras largas, peito cabeludo, musculatura de atleta, sempre em mangas de camisa, calça de brim pardo apertada ao amplo abdômen por estreita correia, negação do suspensório, chinelos de liga, vendendo saúde, sadio e robusto sem nunca ter tomado um remédio - eis em rápidos traços o retrato do patriarca do nosso Zé Pereira, o conhecido e inolvidável José Nogueira de Azevedo Paredes."

" Acidentes da vida que não vêm ao caso fizeram Nogueira procurar o Rio de Janeiro, onde, à rua São José n. 22, abriu modesta oficina de sapateiro. Essa casa era constituída por baixo e feio sobradinho de grades de pau, onde também por muito tempo habitou a conhecida parteira Luiza, velha, desdentada, feia, rosto de pergaminho engelhado - uma carcaça."

" Foi ali que, em uma segunda-feira de Carnaval, Nogueira, em amistosa palestra com alguns patrícios, recordando-se das romarias, das estúrdias e estrondos do ubi natal, resolveu de súbito com eles sair à rua e ao som de zabumbas e tambores, alugados às pressas, dar uma passeata pelas ruas da cidade. Sucesso inaudito: quando ao amanhecer já meio "na chuva" regressou aos lares esse triunvirato de foliões podia exclamar como Cesar - veni, vidi, vinci !"

"No ano seguinte, apareceram imitadores, mas nenhum deles levou de vencida o primacial Zé Pereira do Paredes, que se distiguia ao longe pela certeza das pancadas no bombo e pelo ritmo dos tambores. Esse segredo levou-o ele para o túmulo, nunca sendo excedido nem jamais imitado."

"Quanto a origem do nome, dizem uns que, em certas localidades de Portugal é o bombo conhecido por Zé Pereira; querem outros, e isto é mais provável: na primeira noitada de bom sucesso os companheiros do Paredes, na força do entusiasmo e influenciados pela vinhaça, trocavam o nome do chefe e davam vivas ao Zé Pereira em vez de Zé Nogueira."

" Ele e os sócios compravam bombos e tambores, que depois do Carnaval eram com cuidado guardados em capas de cetim no fundo da loja. Todos os domingos, Nogueira revistava os instrumentos para ver se os ratos e baratas tinham danificado os seus "queridos amigos".

"Passando-se da rua de São José para a do Cotovelo n. 38, continuaram sucessivamente os triunfos e sucessos do barulhento Zé Pereira. Foi este até adotado pelas sociedades carnavalescas e teve entrada nos salões dos Tenentes, Fenianos e Democráticos, etc."

" Sagrado pelos simpáticos populares, foi Paredes proclamado e primus inter pares e venerado por amigos, discípulos e entusiastas como o pontífice da pândega e do sarilho. Não se ensoberbeceu com isso e atribuía o mérito à natureza que lhe dera embocadura. "

"Em certo dia, soube que a companhia do Heller ia representar o Zé Pereira Carnavalesco, paródia dos Pompiers de Nanterre. ` As 7 horas da noite, encartolado e de sobrecasaca estava rente que nem pão quente, às portas do teatro. Durante a representação vieram-lhe de contentamento as lágrimas aos olhos. Tinha em vida as honras do Capitólio, nada faltava à sua glória. Teve ímpetos de subir ao palco e ensinar ao Vasques a manobrar a maceta. Contido por conhecidos, não o fez; seria um escândalo."

"Custou a conciliar o sono - mas afinal dormiu. De madrugada acordou sobressaltado; ouviram gritos. Era o Nogueira que em sonho e na força do entusiasmo fizera zabumba a barriga da fiel companheira que, tranqüila, dormia."

"Homem de bem às direitas, nunca faltou aos seus deveres e os folguedos carnavalescos jamais o tiraram da linha reta da probidade e da honra. Desgostos teve-os em grande quantidade; mas sua alma varonil nunca se quebrantou - pesares, dizia, não adubam sopas. "

"Jovial e pilhérico contava com chistes anedotas de sua mocidade, do tempo de Junot, de D. João VI e das lutas de D. Pedro e D. Miguel."

"Trabalhou sempre até que, vítima de um insulto apoplético, faleceu em vésperas de um Carnaval, em que ainda queria mostrar o quanto valia."

Esta é a história de José Nogueira de Azevedo Paredes - o introdutor do Zé Pereira entre nós - como nos é contada por Vieira Fazenda em suas Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro, editada em 1904.

Vieira Fazenda não situa no tempo o inicio da aventura carnavalesca de José Nogueira de Azevedo Paredes. Almirante, em suas pesquisas, é que coloca o fato como tendo ocorrido ao redor de 1852

Mas o Zé Pereira do Azevedo Paredes consistia apenas nas batidas dos bombos e tambores e dos gritos de Zé Pereira e Viva o Zé Pereira. Vieira Fazenda fala na peça Zé Pereira Carnavalesco que o ator Francisco Correia Vasques (1839-1892) teria encenado na Companhia Jacinto Heller e a qual comparecera o próprio Vasques cheio de orgulho. A música do Zé Pereira veio de uma canção francesa intitulada Les Pompiers de Nanterre e que Correia Vasques adaptara para introduzir os bombos e tambores do Zé Pereira. Os porquês desta adaptação não nos foi revelada. Uma idéia, talvez, para alegrar os carnavalescos que frequentavam o Teatro. A única referência que temos sobre o assunto está no livro escrito por Procópio Ferreira, intitulado "O ator Vasques" e publicado na coleção Memória do Serviço Nacional do Teatro. A história de Vasques é longa e a nós só interessa mesmo o Zé Pereira Carnavalesco. Vejamos o que Procópio fala sobre o assunto:

"Correia Vasques não era apenas um genial ator cômico. Foi também jornalista, prosador, poeta, orador e sobretudo um grande homem porque soube, como poucos, amar o Brasil. Sua obra, entretanto, é um manancial inesgotável para um historiador reconstituir uma época, para um psicólogo tirar conclusões e análise profunda dentro das etapas da nossa formação cultural, ou ainda para um sociólogo estudar a evolução de um povo."

E Procópio passa a citar os principais trabalhos deixados por Francisco Correia Vasques. Enumera nada menos de 46 trabalhos e entre eles o Zé Pereira Carnavalesco encenado no Teatro Fenix pela Companhia Jacinto Heller em 1869 - 17 anos depois que José Nogueira de Azevedo Paredes lançou-o às ruas. Naquele tempo, é claro, as coisas se espalhavam devagar e por isso levou tanto tempo a se popularizar a ponto de interessar ao ator Vasques criar algo em cima da idéia. E teve, ainda, que aproveitar uma música francesa que fazia sucesso na época: Les Pompiers de Nanterre que segundo Edigar de Alencar havia estreado no dia 9 de março de 1869, com grande sucesso, no Teatro Lyrique Français, ex-Alcazar Lyrique, famoso centro de diversões do Rio de Janeiro, fundado em 1859 e situado na Rua da Vala (Uruguaiana) 47 e 51 sob a rubrica de " excentricité burlesque Les Pompiers de Nanterre, de Mrs. Larone e Martinaus, apresentada pela troupe parisiense contratada de J. Arnaud.. O número sensação do espetáculo era a canção francesa que lhe dava o titulo, cantada e bisada por uma das vedetes - Zélia - que fazia furor.

O documento que ora transcrevemos para conhecimento dos nossos clientes
é peça importante para a formação da História do Carnaval.

José Maria Campos Manzo    
Janeiro de 1994    



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