Collector's
Studios Ltda.
::: Collector's ::: Rádio Collector's

Ouvintes online:
• Visualizar em 800 X 600 pixels • Internet Explorer ou Firefox
HOME NOSSA PROPOSTA O DISCO O RÁDIO NOTÍCIAS CADASTRE-SE FALE CONOSCO BUSCAS LOJA
     
Web Site


   A História da música de Carnaval - Histórias pitorescas

CORDÕES CARNAVALESCOS
  • Rosa de Ouro
  • Filhos da Estrela de Dois Diamantes
  • Filhos da Primavera
  • Bola Preta

  • Em janeiro do ano de 1995 contamos, em nosso jornal Collector´s Notícias, a história do Zé Pereira, criado por José Nogueira de Azevedo Paredes e a história do Zé Pereira Carnavalesco, criado por Francisco Correia Vasques. Hoje vamos falar sobre o surgimento das músicas: Ó abre alas - de Chiquinha Gonzaga - e Que bela rosa, cantada pelos sócios do cordão Filhos da Estrela de Dois Diamantes, no enterro de dois dos seus foliões, mortos durante uma briga, no carnaval de 1902.

    Antes, gostaríamos de fazer uma rápida digressão sobre os Cordões Carnavalescos.

    João do Rio - pseudônimo do cronista Paulo Barreto (1881-1921) no seu livro A alma encantadora das ruas, dedicou um capítulo inteiro aos Cordões. A certa altura diz ele:

    "Os cordões saíram dos templos. Ignoras a origem dos cordões? Eles vêm da festa de Nossa Senhora do Rosário, ainda nos tempos coloniais. Não sei porque os pretos gostavam de Nossa Senhora do Rosário. Já naquele tempo gostavam e saíam pelas ruas vestidos de reis, de bichos, de pagens, de guardas, tocando instrumentos africanos e paravam em frente à casa do vice-rei, a dançar e a cantar."

    O professor Carlos Góis no seu livro Histórias da Terra Mineira, ao falar de Chico Rei - aquele escravo que era rei na sua terra e em Vila Rica, Minas Gerais, conseguiu libertar todos os conterrâneos, pagando-lhes a alforria e depois coroando-se rei novamente, aqui no Brasil - escreveu o seguinte:

    "No dia 6 de janeiro de cada ano, o Rei, a Rainha e os Prícipes, vestidos com trajes opulentos, cobertos de suas insígnias e coroas, eram, com grande aparato, levados à Igreja do Rosário, onde assistiam à missa cantada. Ao término da mesma, saiam pelas ruas de Vila Rica, executando danças características, à moda da África, tocando instrumentos indígenas dos usados na Guiné. Estas festas chamavam-se Reisados do Rosário. De Ouro Preto estenderam-se às outras cidades e lugares do Brasil, onde ainda hoje são conservadas." (A obra Histórias da Terra Mineira saiu pela primeira vez em 1913 e a Lenda do Chico Rei situa-se no século XVIII)

    Naquele tempo, a maioria dos negros eram escravos e por isso só poderiam externar seus sentimentos sob a proteção religiosa. Mais tarde, depois da libertação dos escravos em 1888, essas manifestações foram também estendidas ao Carnaval dando origem, então, aos chamados Cordões Carnavalescos.

    Eneida no seu maravilhoso livro História do Carnaval nos conta que Renato de Almeida, assim os descrevia:

    "Os cordões eram grupos de mascarados, velhos, palhaços, diabos, rei, rainha, sargento, baianas, índios, morcegos, caveiras, etc. que vinham conduzidos por um mestre a cujo apito de comando, todos obedeciam. O conjunto instrumental era de percussão: adufos, cuicas, reco-recos, etc."

    A característica principal dos Cordões era o estandarte. Cada cordão possuía o seu e cada um procurava torná-lo mais luxuoso, a ponto dos jornais da época, anualmente, cederam o seu saguão, um mês antes do Carnaval, para a exposição dos estandartes, concedendo prêmios aos melhores.

    Diz Eneida:

    "Muito antes da semana carnavalesca, os Cordões começavam a ensaiar. E eram ensaios tão festivos como a festa propriamente dita. Já no sábado de carnaval, à tarde, começavam a batucar e só silenciavam na quarta-feira com o nascer do sol. Mas, faziam uma pausa no batuque para, ainda no sábado gordo, irem buscar, na redação dos jornais, os seus estandartes que ali estavam em exposição. Na segunda-feira de tarde desfilavam pelas ruas da cidade - na Rua do Ouvidor, primeiro e depois pela Avenida Central (Av. Rio Branco)."

    Os estandartes eram o ponto alto na vida de um Cordão. Pela sua confecção, pela maneira com que seriam apresentados, os associados de um Cordão muitas vezes brigavam às sérias. Pintados ou bordados à mão, com fios de ouro e alegorias, os estandartes representavam tanto para os Cordões que os jornais chegavam a descrever suas minúcias.

    Os estandartes não eram, porém, privilégios dos Cordões. As Sociedades Carnavalescas e os Clubes também os usavam, mas nos Cordões eles assumiam uma importância maior por ser, basicamente, o que diferenciava um do outro.

    Os Cordões mantinham uma séria rivalidade entre si e dessas rivalidades, muitas vezes, saiam brigas e às vezes mortes.

    Mas antes de falar dessas brigas, ou melhor, de uma famosa dessas brigas ocorrida no Carnaval de 1902, falemos sobre o Cordão Rosa de Ouro.

    Foi graças a ele que tivemos a primeira marcha carnavalesca tipicamente brasileira - Ó abre alas - de Chiquinha Gonzaga.

    Existem dois livros importantes sobre a Maestrina sendo que o mais antigo é de autoria de Mariza Lira. Sua primeria edição saiu em 1939 e é dela que extraímos o trecho seguinte:

    Carnaval de antanho. Máscaras isoladas ou pequenos grupos de foliões alegravam a cidade. Os bailes inauguraram-se um pouco antes de 1850, por iniciativa da cantora Del Mastro, que para aqui viera com a Companhia Lírica Madame Lugrange. Impossível precisar a data da organização dos Cordões Carnavalescos.

    A princípio não havia música de carnaval. Só muito mais tarde é que os Cordões cadenciavam as suas passeatas e evoluções com músicas próprias, especialmente feitas para a folia, e ensaiadas espetacularmente muitos dias antes.

    Aproxima-se o Carnaval de 1899. Defronte da casa de Chiquinha Gonzaga, no Andarai, um Cordão desesperava a vizinhança com os ensaios dos cânticos e danças, em barulheira infernal. Chiquinha pôde apreciar, certa vez, as evoluções dos figurantes, vendo negros caminharem aos arrancos, em negaças, requebros e contorções incríveis, em ritmo estranho.

    Era o Cordão Rosa de Ouro.

    Uma tarde de domingo, foi procurada por uma comissão. Três ou quatro negros fortes, de longas calças bombachas (como se dizia então), fraques negros, colarinhos muito altos e chapéu de coco, esperavam-na de pé. Vinham pedir um obséquio: fazer a música para o Cordão Rosa de Ouro.

    A compositora nada sabia negar e a comissão saiu certa de que teria a música. Inspirando-se no ritmo estranho dos negros, nos seus passos coreográficos originais, na alegoria ruidosa, Chiquinha pode compor o famoso:

      Ó abre alas
      Que eu quero passar
      Eu sou da lira
      Não posso negar

      Ó abre alas
      Que eu quero passar
      Rosa de Ouro
      É que vai ganhar

    E o Rosa de Ouro ganhou mesmo. O Ó abre alas foi o grande sucesso naquele carnaval e em muitos outros. É tal a propriedade da letra e a expressiva cadência da música que essa cantiga, que se vai tornando patrimônio popular, é um legítimo toque de alarme carnavalesco. É uma música sempre relembrada com encantamento em todos os carnavais do Rio.

    Esta é a primeira versão publicada da história do Ó abre alas. É verdade que a mais antiga gravação conhecida da música está no disco Cordão Carnavalesco - Flor do Enxofre Vermelho, gravado por Mário Pinheiro e outros em 1908 para a Casa Edison (Disco n. 108.188) e já reproduzido por nós na fita especial que editamos para comemorar os 60 anos da morte de Chiquinha Gonzaga. Por ela descobre-se que os versos da música não são os que Mariza Lira reproduziu e que foram gravados por Linda e Dircinha Batista para a História da Música Popular Brasileira, da Editora Abril.

    Apenas como curiosidade transcrevemos a letra cantada por Mário Pinheiro:

      Ó abre alas
      Que eu quero passar
      Eu vim de longe
      Não posso negar

      Ó abre alas
      Que eu quero passar
      Minha morena
      Vô, você vem cá

    A letra indicada por Mariza Lira deve ser a que aparece na partitura original.

    Como dissemos antes, o encontro de dois Cordões Carnavalescos era, na maioria das vezes, motivo para desafios, desacatos e brigas. Luiz Edmundo, no seu consagrado livro O Rio de Janeiro do meu tempo nos conta à página 824 e seguintes, uma curiosa história sobre os Cordões Carnavalescos:

    "No domingo, primeiro dia da folgança de Momo no ano de 1902, o Cordão Carnavalesco Filhos da Estrela de Dois Diamantes parte do centro da cidade enchendo um bonde que caminha para Botafogo, batendo pandeiros, raspando reco-recos, dançando, cantando. Quando o veículo da Companhia Jardim Botânico vai dobrar a curva da Rua Marquês de Abrantes para entrar na Praia de Botafogo, é agredido, de surpresa, por vários sócios do Cordão Carnavalesco Filhos da Primavera, grupo congênere e rival, que aí se plantara de tocaia. É uma refrega estúpida e sangrenta. Os homens batem-se como feras. A faca. A tiro. Rodam aos bolos. Sangram-se. Até as mulheres entram no conflito que assume as proporções de uma feroz batalha. Quando serenam os ânimos, a rua é uma caudal de sangue. Há mortos, e o número de feridos e contusos é enorme.

    Na luta, os atacantes, os do Cordão Filhos da Primavera, levaram enormes vantagens. Quando chega a polícia, chega tarde; já os da Estrela de Dois Diamantes sucumbem ao peso de uma maioria preparada.

    Vale a pena, no entanto, registrar o que sucede no dia imediato, pelo enterro das vítimas: Angelino Gonçalves, o Boi e Jorge dos Santos, sem alcunha carnavalesca. O caso é, realmente, digno de registro.

    Saem os corpos do necrotério, que então se instala no Edifício da Faculdade de Medicina, isto é, à Práia de Santa Luzia, junto a Santa Casa. Os da Estrela de Dois Diamantes deixam a morgue organizando o préstito mortuário, com o seu estandarte envolto em crepe, as caixas de rufo teatralmente em funeral embora os Sócios dentro das fantasias as mais escandalosas e berrantes. Os caixões, negros e pobres, vão à frente. A seguir, uma carreta, flores, palmas, corôas e grinaldas. É uma homenagem simples, porém tocante. Desce o préstito, que é numeroso, a caminho do Catete. Pelos lugares por onde passa, o povo, reverente, se descobre. As senhoras persignam-se. Rezam. A tragédia afligiu toda a cidade! As janelas das casas chega toda uma multidão de curiosos para gozar o quadro singularmente sombrio e melancólico. Vai o bando lúgubre e silencioso roçando as calçadas do Largo da Glória, quando súbito, lhe surge pela frente, carregando pendões carnavalescos, caixa de rufo, bombos e tambores, um povaréu enorme, que ondula. São várias agremiações congêneres que, em peso, querem, também, homenagear os heróicos batalhadores de Momo, no campo da "honra" e do "dever" colhidos pela morte...

    Os jornais da época dão o nome dessas associações. São elas: Filhos do Poder de Ouro, Destemidos do Catete, Maçãs de Ouro, Raínha das Chamas e Triúnfo da Glória. É um espetáculo magnífico. Verdadeira mobilização de mascarados. Centenas e centenas de homens vestindo as mais berrantes e excêntricas indumentárias de carnaval, com a cara pintada, com sacos de confetti a tiracolo, pacotes de serpentina debaixo do braço, estandartes policrômicos desenrolados no ar, manchas violentas e alegre de cor num cenário de luto e tristeza. Formados em continência, deixam passar os esquifes onde repousam os mortos. Depois, incorporam-se à massa espessa dos acompanhadores.

    Pela rua do Catete segue o formigueiro humano, caminho de Botafogo, em passo ritmado. De quando em quando novas adesões aumentam a cauda viva, que se encaminha para o cemitério. Mais povo. Mais carnavalescos. Chega a impressionar a magestade do séquito pomposo com que nunca sonharam ter um dia, Angelino Gonçalves, vulto Boi e Jorge Santos, sem alcunha carnavalesco. E vão a marchar todos, assim, a caminho de Botafogo, quando um dos ranchos tem a idéia de fazer soar, sobre a pelica dos seus tambores, rufos melancólicos, em ritmada e fúnebre surdina: pram... pram... pram.

    A idéia é amável. Agrada. Outros cordões imitam-na. Rufam também: pram...pram...pram. O ruido dos passos, nas calçadas, é vencido pelo planger das pelicas que as vaquetas barulham. Ganha um pouco de vida a comitiva enorme. À frente, sempre, os dois negros ataúdes que dominós, diabos, palhaços e pierrots carregam. Vão todos em marcha lenta, mais ou menos dispostos e aprazados, quando rompe uma voz misteriosa, num cristalino canto que se eleva em adágio magnífico... E logo, acompanhando-a, o surdo rumor de instrumentos de sopro...

    A toada impressiona. Comove. É profunda. É serena. A princípio desenha angústia. É pranto e é sofrimento. Depois, desenrolada, ganha um ímpeto mais vivo, mais decisivo. Aquece. Arredonda-se. Alteia-se. Destaca-se. Domina.

    ....................................................................

    Vozeria. Clamor. Desencadeia-se a folia. Delírio. A loucura é geral. Quando chegam ao cemitério, os funcioários da Santa Casa entreolham-se espantados. Entram os dois caixões aos boléus, os mascarados que os carregam aos empurrões, aos evoés! À frente deles, já passou um bando de índios emplumados de arco, flexa e tacape, cantando, silvando, vivendo em fogo a pantomima dos seus bailados singulares.

    Quando a cova fria recebe os corpos que se enterram e cruzam no ar confetes e serpentinas, o cemitério está coalhado de máscaras, de fantaziados alacres que se agitam, massa colorida que se esparrama, fala, ri, barulha, gargalha, entre cruzes de pedra, ciprestes, anjos de mármore que abençoam, lousas, urnas funerárias e salgueiros... E há quem cante. E quem dance.

    Sabbat magnífico! Momo domina seus muito amados filhos, soberbo e colossal, do seu trono invisível. É quando se vê um folião representando a figura da morte na sua negra e sinistra indumentária, tendo na mão esquerda um crucifixo de prata e na outra uma tíbia, talvez autêntica, talvez achada no lugar, subir para o mausoléu de granito, gritando forte aos carnavalescos que o saúdam, como se fosse ele a própria alma carioca que alí estivesse a gritar, cheia de sinceridade e de vigor: - Viva o carnaval!

    Luiz Edmundo não identificou no seu registro qual foi a música cantada mas Almirante foi rebuscá-la no testemunho pessoal de um participante do acontecimento, o conhecido carnavalesco Candinho das Laranjeiras, o autor de outra marcha que anos depois seria adaptada por Benedito Lacerda e Humberto Porto com o nome de Jardineira.

    Eis os versos da melodia, então cantada, segundo pesquisa de Almirante e registrada por Edigar de Alencar em seu livro O carnaval carioca através da música:

      Que bela rosa
      Que lindo jasmim
      Eu vi o triunfo
      Lá no seu jardim.

    É a história da marcha Que bela rosa incluida por nós em nossa História da Música de Carnaval.

    Os Cordões foram lentamente substituidos pelos Ranchos bem mais organizados e sem os brigões de sempre. O último cordão famoso foi o Cordão da Bola Preta que existe até hoje e diz no seu estatuto, aprovado em 1926:

    Artigo Primeiro - O Cordão da Bola Preta fundado em 31 de dezembro de 1918 nesta cidade com sede atualmente à Rua da Glória n. 88, é sociedade recreativa e tem por objetivo único manter a tradição dos antigos Cordões, primeiros e inesquecíveis agrupamentos típicos do carnaval carioca, proporcionando aos irmãos, reuniões sociais, isto é bailes, sessões de música e canto, o culto aos sambas, batuques e choros e de canções nacionais, a prática de jogos tolerados pelas leis do país, a leitura de livros, jornais e revistas e demais publicações análogas de preferência desportivas e instrutivas.

    Pagágrafo único - Por isso mesmo que cuida de manter a tradição dos primeiros agrupamentos típicos do carnaval carioca, esta agremiação tem o característico título de Cordão - título que jamais poderá ser alterado, pois qualquer alteração seja de que natureza for, implicará na dissolução do Bola Preta.

    (Seguem-se outros artigos)

    Com o desparecimento dos Cordões, no começo deste século, tiveram incremento os ranchos entre os quais se destacou o Ameno Resedá que se intitulava de Rancho-Escola e foi fundado em 17 de fevereiro de 1907.

    Em 1917 apareceu o samba e para cultuá-lo teve início a era dos Blocos Carnavalescos, dentre os quais se destacou logo o Bloco dos Africanos organizado por Sinhô e que participou, inclusive, das gravações de Pé de Anjo e Papagaio Louro.

    Estes Blocos deram origem as hoje famosas Escolas de Samba.

    O documento que ora transcrevemos para conhecimento dos nossos clientes
    é peça importante para a formação da História do Carnaval.

    José Maria Campos Manzo    
    Janeiro de 1995    



    CARNAVAL
    Mapa da seção
    Fase mecânica
    Fase elétrica
    Letras
    Histórias pitorescas
    Acervo
    Vídeo Clipes
    Discos à venda


    Copyright © 1997 - 2016 - Collector's Studios de Restauração de Áudios Ltda. Todos os direitos reservados.
    Caixa Postal, 92.888 - Centro - Teresópolis - RJ - CEP: 25953-970 - Telefax: 0**21 3643-6700